As fases do transtorno bipolar incluem episódios de mania ou hipomania e de depressão, conforme o tipo de transtorno. Entre episódios, pode haver períodos de estabilidade, chamados de eutimia. Essas apresentações não seguem uma sequência obrigatória: a história de cada pessoa precisa ser avaliada ao longo do tempo.
Uma mudança que parece melhora — dormir menos e voltar a fazer muitos planos, por exemplo — merece ser compreendida junto do restante da história. Também é importante distinguir episódios de humor das variações comuns de um dia difícil. Este artigo explica as diferenças e ajuda a organizar o que levar para uma avaliação.
Como diferenciar as fases do transtorno bipolar?
- Mania: aumento acentuado de energia e atividade, com humor elevado ou irritável e prejuízo importante; pode haver psicose.
- Hipomania: mudança observável de humor e energia, sem o prejuízo acentuado, a hospitalização ou a psicose que caracterizam a mania.
- Depressão: tristeza persistente ou perda de interesse, acompanhada de outros sintomas e impacto no funcionamento.
- Eutimia: período de estabilidade do humor; dificuldades e sintomas residuais ainda podem precisar de cuidado.
Essas descrições são um resumo, não uma lista para fechar diagnóstico. Intensidade, duração, contexto e diferença em relação ao funcionamento habitual precisam ser considerados em conjunto. [1]
Mania: o aumento de energia pode trazer riscos
Na mania, a pessoa pode dormir muito menos sem sentir necessidade de recuperar o sono, falar mais, ter pensamentos acelerados e se envolver em gastos ou decisões de risco. O humor pode ser irritável, sem predomínio de euforia. O comprometimento é importante e pode exigir hospitalização. [1]
Para a avaliação, é útil descrever o que mudou: “Passei a assumir compromissos que antes não assumiria” informa mais do que apenas “estou animada”. Traga datas aproximadas, observações de pessoas próximas e consequências nas atividades. Esses exemplos ilustram como relatar uma mudança; não são relatos de pacientes.
Hipomania: produzir mais não basta para concluir que está tudo bem
A hipomania também envolve uma mudança do padrão habitual, perceptível por outras pessoas. A distinção em relação à mania considera sobretudo gravidade e impacto, além da duração. A presença de psicose não é compatível com um episódio hipomaníaco. [1]
Depois de um período difícil, conseguir fazer mais coisas pode trazer alívio. A dúvida merece conversa quando isso vem acompanhado de mudanças incomuns no sono, no ritmo, nas decisões ou na convivência. Uma produtividade aparente não substitui a avaliação do conjunto.
Para aprofundar essa comparação, leia a diferença entre mania e hipomania.
Depressão bipolar: o impacto pode aparecer no autocuidado
A depressão pode envolver perda de interesse ou prazer, tristeza, alterações de sono e apetite, cansaço, culpa e dificuldade de concentração. Na avaliação de depressão bipolar, a história de mania ou hipomania tem papel central. A aparência do episódio depressivo, isoladamente, não conta toda essa história. [1]
Ao procurar atendimento, conte o que ficou difícil de realizar: preparar uma refeição, responder mensagens, cumprir uma tarefa ou manter os cuidados pessoais. Descrever as dificuldades permite discutir necessidades concretas, sem exigir que você explique tudo com um nome de fase.
Veja também depressão bipolar: sintomas, tratamento e psicoterapia.
Características mistas: sinais de polos diferentes podem coexistir
Um episódio pode apresentar sintomas do polo oposto, com critérios específicos para a classificação de características mistas. Isso é diferente de simplesmente mudar de opinião ou sentir alegria e tristeza no mesmo dia. Descreva os sintomas e quando apareceram, sem tentar decidir sozinho a classificação. [1]
Eutimia: estabilidade não é ausência de problemas da vida
Estar estável não exige sentir felicidade constante. Preocupações, conflitos e frustrações podem continuar presentes. Dificuldades persistentes, inclusive entre episódios, também merecem espaço no acompanhamento.
O período de manutenção permite revisar a história do transtorno, as respostas aos tratamentos e as situações associadas a novas descompensações. As diretrizes RANZCP destacam essa avaliação individual para planejar a continuidade do cuidado. [2]
É um momento para conversar sobre o que você quer preservar e o que ainda precisa de ajuda: rotina possível, relações, trabalho e participação no tratamento. Sentir-se melhor também pode trazer dúvidas sobre continuar o acompanhamento. Leve essas dúvidas aos profissionais; decisões sobre medicamentos devem ser feitas com o médico responsável.

Como registrar mudanças para levar à consulta
Um registro pode ajudar a contar a história sem depender apenas da memória do dia da consulta. Combine com os profissionais se ele faz sentido para você. Se for útil, anote de forma breve:
- Quando começou: a data aproximada e se a mudança vem persistindo.
- Sono: horários, tempo aproximado de sono e como você se sente ao acordar.
- Atividades: o que passou a fazer mais, menos ou de forma diferente.
- Impacto: mudanças no autocuidado, trabalho, dinheiro e relações.
- Contexto: acontecimentos relevantes e dúvidas sobre o tratamento.
Você pode chegar à consulta dizendo: “Desde terça, estou dormindo menos e assumi vários compromissos; minha companheira percebeu que estou falando mais”. Essa é uma situação ilustrativa. Não é preciso preencher um formulário perfeito nem classificar a fase antes de pedir ajuda.
A psicoeducação descrita por Colom e Vieta inclui aprender a reconhecer sinais pessoais e discutir formas de agir quando eles aparecem. O registro tem utilidade quando integra um plano de cuidado, em vez de virar fiscalização constante de si mesmo. [3]
Quando buscar avaliação sem esperar a próxima sessão?
Procure avaliação prontamente diante de uma mudança importante do seu padrão ou de piora rápida. Psicose, risco de se machucar ou machucar alguém e incapacidade de manter cuidados básicos exigem atenção imediata. Em uma emergência, procure um serviço de urgência. Um artigo ou uma mensagem agendada não substitui esse atendimento.
Mesmo fora de uma emergência, vale combinar com a equipe como comunicar alterações e quem procurar se a profissional não estiver disponível. Uma conversa sobre esse plano pode incluir uma pessoa de confiança, quando você autorizar e isso for adequado à sua situação.
Perguntas frequentes
As fases do transtorno bipolar acontecem sempre na mesma ordem?
Não. Não existe uma sequência obrigatória de mania, hipomania, depressão e estabilidade. A avaliação considera a história dos episódios e o funcionamento entre eles.
Todo período de muita produtividade é hipomania?
Não. Produtividade isolada não define um episódio. Mudança em relação ao habitual, duração, sintomas associados e impacto precisam ser avaliados em conjunto.
É possível ter sintomas depressivos e de ativação ao mesmo tempo?
Sim. Um episódio pode incluir características mistas, conforme critérios clínicos. Relatar os sintomas e a sua evolução ajuda na avaliação; não é necessário classificar a fase antes de procurar atendimento.
Preciso continuar o cuidado quando estou estável?
A manutenção faz parte do tratamento. Converse sobre objetivos, frequência e continuidade com os profissionais. Não suspenda ou ajuste a medicação por conta própria.
Como a psicoterapia participa desse cuidado?
Conhecer as fases pode ajudar a formular perguntas e participar das decisões. O acompanhamento psicológico pode trabalhar psicoeducação, reconhecimento de sinais e dificuldades do cotidiano, articulado aos demais cuidados. Saiba mais em como funciona a psicoterapia para transtorno bipolar.
Para conhecer o atendimento com Thaylândia Pereira ou com a equipe da Clínica Caminho da Estabilidade, consulte as informações de terapia online e converse com a equipe sobre disponibilidade.
Referências
- Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. CANMAT and ISBD 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. Texto completo. doi:10.1111/bdi.12609.
- Malhi GS, Bell E, Bassett D, et al. The 2020 Royal Australian and New Zealand College of Psychiatrists clinical practice guidelines for mood disorders. Aust N Z J Psychiatry. 2021;55(1):7–117. doi:10.1177/0004867420979353.
- Colom F, Vieta E. Psychoeducation Manual for Bipolar Disorder. Cambridge University Press; 2006. Edição digital de 2010. Publicação original.
Autoria: Thaylândia Pereira · Psicóloga · CRP MG 04/57801. Revisão clínica sob responsabilidade de Thaylândia Pereira. Atualização editorial: 24/10/2026. Conteúdo educativo; não substitui avaliação individual.

